Os símbolos não são apenas objetos ou paradigmas. Na verdade, eles podem ser considerados a categoria fundamental geratriz de nossos conhecimentos, por representarem todas as nossas percepções da realidade, sejam elas ideias, palavras, emoções ou fórmulas matemáticas. Produtos de nosso espírito, os símbolos se nos apresentam criativos, lógicos, emotivos e/ou comportamentais, tudo dependendo da forma como nossa sensibilidade os estruturam. Continue lendo
A experiência extática do espírito
O Espírito, apesar de muito semelhante à alma, com esta não se confunde. A alma (hebraico: nephesh; grego: psyche; latim: anima) é o que mantém o corpo vivente, o princípio interior que faz a pessoa possuir determinadas características subjetivas. É indicativa de individualidade vital. Por isso, quando separada do corpo, pela morte, fica incompleta até reencontrar-se com o seu primitivo corpo (segundo Aristóteles). Por outro lado, para Platão, ao contrário, porque a alma pertence ao reino das formas puras, depois da morte, pode circular livremente no mundo substancial das essências. Continue lendo
A escalada da espiritualidade
Alcançar o convívio com o Espírito é um privilégio concedido a poucas pessoas. Acontece que este convívio, sendo uma experiência extática, exige de nós algumas condições especiais, que infelizmente a maioria das pessoas não consegue alcançar, sejam porque não lhes é concedida a graça (o Espírito “sopra” onde quer), seja porque não conseguem desenvolver a ascese necessária àquela conquista. Continue lendo
A compreensão do saber
Observa-se que, diferentemente dos animais, que agem movidos apenas por suas características biológicas, o ser humano atua na natureza de forma consciente, abstrata e simbólica, o que o torna criador de conhecimentos, teorias, mitos e crenças que ultrapassam os limites de suas contingências, sejam naturais ou biológicas, sejam históricas ou culturais. Continue lendo
A clonagem humana ou ciência e ética
Periodicamente tem sido a humanidade sacudida pelas conquistas da ciência, colocando em xeque os valores estabelecidos, ou melhor, as maneiras tradicionais pelas quais justifica as suas diversas opções. Estou me referindo especificamente aos problemas éticos referentes à clonagem humana. Continue lendo
NICOLAU MAQUIAVEL – O Príncipe
Maquiavel reflete o espírito do Renascimento em três de suas características essenciais: ao acentuar, e mesmo exagerar, o papel dos líderes, traduz o relevo particular que a época empresta ao indivíduo; ao preocupar-se com a ação, inspira-se no sentido renascentista voltado para o dinamismo, em contraste com a era medieval, no qual o imobilismo do espaço se sobrepunha ao ritmo do tempo; e, ao retornar aos antigos, para sorver-lhes a sabedoria, enquadra-se na atitude que deu à Renascença o seu próprio nome. Este caráter exemplar da antiguidade decorria, para Maquiavel, na crença da constância da natureza do homem e na admiração pelas virtudes da Roma Republicana que, por força da sua visão cíclica da história, esperava ver renascer.
A partir dessa nova ética – e a necessidade de apontar para uma ética maquiavélica, é mais um dos paradoxos daquele que é considerado a encarnação do imoralismo – Maquiavel retorna, e transforma em símbolo, o conceito devirtù, deusa pagã, a ela apenas se referindo em sua forma italiana e no singular, em contraste com o plural latinovirtudes, de origem cristã.
O PRÍNCIPE – No exílio, ao enviar sua carta a Lourenço de Médici (1492-1519), Maquiavel declara explicitamente que está escrevendo um manual de conselhos para os príncipes e, de modo particular, para o novo príncipe de Florença, da família Médici, acerca de como manter o controle sobre um principado e de como governá-lo e também na esperança de conseguir um cargo na nova administração.
Capítulo I
1) Quantas espécies de principado descreve Maquiavel e quais são elas?
Ele identifica três tipos de principados: os hereditários, os novos e os mistos.
2) Como poderia um príncipe conseguir um principado?
Um novo príncipe poderia conseguir um principado por conquista, por fortuna (sorte) ou por virtù.
Capítulos II e III
1) Por que é mais difícil um novo príncipe manter o poder do que um governante hereditário?
O novo príncipe terá de procurar apoio e impedir que as facções tradicionais se tornem muito fortes.
2) Que métodos, pode o príncipe utilizar para manter o poder nos territórios de que se apossou?
Se os territórios recém conquistados forem semelhantes ao Estado existente, o governante deverá fazer desaparecer a linha dinástica do Senhor que neles imperava, mas deixar inalteradas suas leis e seus impostos. Se os territórios acabados de conquistar forem diferentes do Estado antigo, seria prudente que o novo príncipe neles passasse a residir; que estimulasse a colonização, que guarnecesse o território e manipulasse as potências vizinhas, de modo a tornar temerária a sua invasão.
3) Que exemplos apresenta Maquiavel de governantes que anexaram territórios alheios com sucesso? E sem sucesso?
Os antigos romanos anexaram com sucesso territórios alheios, ao passo que as tentativas de Luís XI da França nesse sentido não foram coroadas de êxito.
CAPÍTULO VII
1) Maquiavel cita exemplos de um príncipe que conquistou o poder por meio de sua própria virtù e de outro que o conseguiu por sorte. Quais os exemplos que apresenta?
Francisco Sforza, Duque de Milão, é citado como exemplo de um príncipe que ascendeu ao poder por virtù própria; César Borgia, Duque da Romanha, é apresentado como exemplo de quem conquista o poder por sorte (fortuna).
2) Para manter-se no poder, que ações um príncipe faria bem em imitar?
César Bórgia
CAPÍTULO X
1) Como se deveria avaliar o poder de um principado?
Meramente em termos de sua força militar
2) Quais as cidades que possuíam excelentes fortificações?
As cidades da Alemanha
CAPÍTULO XI
1) Maquiavel é de opinião que o governo de um principado eclesiástico revela ser mais fácil ou mais difícil? Que razões dá ele para reforçar este ponto de vista?
Maquiavel considera menos difícil governar um principado eclesiástico, porque o direito auferido pelo governante de exercer o poder teria o apoio das instituições religiosas. O poder permanecerá com a Igreja, mesmo que o governante, por si mesmo, aja sem contar com a fortuna e a virtù.
CAPÍTULOS XII e XIV
1) Quais são os fundamentos essenciais de um Estado?
Boas leis e boas armas
2) O que é de primordial importância para a segurança de um Estado?
Um exército próprio
3) Qual a arte que é de muitíssima utilidade a um príncipe?
A arte da guerra
CAPÍTULO XVI
1) Deve um príncipe ser pródigo ou miserável?
De início ele deverá ser liberal (ou, pelo menos, ter esta reputação) para alcançar o poder; mas, uma vez no poder, convém que seja avaro, o que evitará que ele tenha de sobrecarregar de impostos os seus súditos. O príncipe deve ser pródigo com as riquezas advindas de territórios conquistados – recompensando tanto os soldados como os cidadãos.
2) O que deve um príncipe evitar?
O ódio e a ignomínia
CAPÍTULO XVII
1) Deve o príncipe ser cruel ou piedoso?
Um príncipe não deve ser cruel indiscriminada ou gratuitamente. Há casos em que a crueldade é, de dois males, o menor; por exemplo, seria preferível que o príncipe mandasse executar os desordeiros, evitando a possibilidade de uma guerra civil e preservando a prática da lei e da ordem. Uma compaixão excessiva por parte de um príncipe (e, em especial, por parte de um novo príncipe) pode aumentar, em determinadas circunstâncias, a instabilidade e a ineficiência de seu regime.
2) É preferível que ele seja amado ou que seja temido?
O príncipe deve esforçar-se por ser ao mesmo tempo amado e temido, mas, por causa da natureza ingrata e caprichosa do homem, é essencial que, pelo menos, seja temido.
3) O que ele deve evitar?
Ele não deve apoderar-se da propriedade ou das esposas dos seus súditos, pois isto nunca lhe será perdoado.
4) A reputação de crueldade será desvantajosa para ele?
Num líder militar, uma tal reputação pode constituir uma vantagem positiva para a disciplina das tropas.
CAPÍTULO XVIII
1) Devem os príncipes manter suas promessas?
Apenas quando seja conveniente fazê-lo
2) Por que deve o príncipe estar pronto a agir como um animal?
A primeira responsabilidade de um príncipe é a de permanecer no poder. Consegue-o, por vezes, empregando meios legais; mas há casos em que ele se vê obrigado a recorrer à força bruta. Deve imitar, da raposa, a astúcia, a fim de poder distinguir as armadilhas, e, do leão, a ferocidade e a força, para afugentar o inimigo.
3) Um príncipe pode permitir-se ser virtuoso?
Não é prudente que um príncipe seja virtuoso, já que tem de lidar com homens perversos. Deve assumir apenas a aparência da virtude.
CONCLUSÃO: A contribuição mais marcante que Maquiavel deixou como cientista político, foi, talvez, a maneira franca com que separava a esfera política da religiosa. A política, tradicionalmente, não era considerada uma atividade autônoma.
IMMANUEL KANT – Textos Seletos
1) Trata-se da coletânea de 7 textos retirados da edição alemã de Wilhelm Weischedel: Immanuel Kant, Werke in sechs Bänden, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt, 1956-1964, com tradução do original alemão por Raimundo Vier (os prefácios da Crítica da Razão Pura) e os demais tradução de Floriano de Souza Fernandes, com a introdução geral a cargo de Emmanuel Carneiro Leão.
2) Com o título Ideologia, filosofia e pensamento, o Autor da Introdução nos relata a dependência de toda ciência a uma linguagem (semântica), que acaba por impregnar qualquer tipo de conhecimento, seja ele científico, filosófico, estético ou religioso, mitológico ou crítico. Dessa forma a epistemologia se mascara em ideologia, transformando a natureza de qualquer ciência ou conhecimento.
3) Tendo em vista o esclarecimento dessas questões, os Textos Seletos ora apresentados resumem a contribuição de Kant, que escreveu os prefácios da Crítica da Razão Pura, de 1781 e de 1787 e alguns opúsculos menos conhecidos:Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade, O fim de todas as coisas, resposta à pergunta: que é Esclarecimento?, Que significa orientar-se no pensamento? E, Sobre a discordância entre a moral e a política a propósito da paz perpétua.
4) O que Kant nos oferece é a conceituação da chamada filosofia transcendental, que ele define: “Chamo transcendental todo conhecimento que se ocupa não tanto com os objetos, mas com nossa maneira de conhecer os objetos, enquanto um tal conhecimento tenha de ser possível a priori“. Ao que poderíamos resumir: como é possível a objetividade enquanto apreendida pelos sentidos e pelas categorias do entendimento, mesmo se transformando numa semântica de conhecimento? Vê-se que a filosofia de Kant se afasta dos objetos para questionar as próprias possibilidades de sua postulação, num esforço de consistência metafísica.
5) Para tanto Kant nos diz, no prefácio à primeira edição da Crítica da Razão Pura (1781), que a razão humana, desde o início de sua postulação, vê-se envolvida em paradoxos insolúveis, por não poder dar conta dos princípios que ela mesma estabelece, na tentativa vã de explicar a realidade última de tudo. E assim fomos conduzidos ao dogmatismo, ao ceticismo e ao indiferentismo.
6) Ora, para superar tudo isso, Kant nos diz ter escolhido o caminho da crítica da razão pura, isto é, o conhecimento que ela possa atingir, por si mesma, independentemente de toda experiência, uma pura metafísica, que ele acha poder ter alcançado (sic), por fazer uso exclusivo de condições lógicas de prova, independentemente de opiniões ou desejos. Contudo, se o leitor ainda assim não estiver de acordo, que consulte o segundo capítulo da CRP, a Analítica Transcendental, que ele considera a parte principal e insofismável de sua demonstração da consistência de nosso pensar.
7) Ela comporta, não só uma clareza discursiva, lógica, por conceitos, mas também uma clareza intuitiva, estética, por intuições, obtida através de exemplos ou outros esclarecimentos in concreto. Para tanto, Kant pretendia editar uma Metafísica da natureza, mais simples e rica em conteúdo do que a presente Crítica.
8) No prefácio à segunda edição da Crítica da Razão Pura (1787), Kant nos assegura que a lógica, já fixada desde tempos mais antigos, não é mais do que uma propedêutica das ciências, se levarmos em conta suas dificuldades quando se volta para a concretude dos objetos. Acrescentar-lhe Psicologia, Metafísica ou Antropologia, como fazem alguns modernos, não muda a sua estrutura.
9) Assim, foi dessa forma que as ciências matemáticas, a física e as ciências da natureza conseguiram novos progressos, o que não aconteceu com a metafísica, que permanece presa apenas às suas tautologias (juízos analíticos). Contudo, em todas elas se constata que o a priori de seus conceitos são construções apenas formais de nosso entendimento, não atingindo a realidade concreta dos objetos.
10) Kant está convencido de que a única forma de salvar a metafísica será por meio da crítica, eliminando de uma só vez o materialismo, o fatalismo, o ateísmo, a descrença do livre-pensamento, o fanatismo e a superstição. Assim, a crítica não se opõe ao procedimento dogmático exercido pela lógica, mas sim ao dogmatismo ou a ideologia do conhecimento certo.
11) No capítulo terceiro “que significa orientar-se no pensamento?“, Kant ressalta a importância da imaginação como aquela atividade criativa provinda da razão que, atuando de forma heurística, pode nos ser muito útil, mesmo no caso do pensamento abstrato. Ora, isto ressalta a importância de nossos sentidos subjetivos, que nos orientam nos processos de compreensão da realidade.
12) Kant ainda distingue a razão em seu uso teórico e em seu uso prático. No uso teórico, temos que admitir a existência de Deus como o Necessário que explica a existência do Contingente e a ordem das finalidades. Já no uso prático, a razão procura atingir o supremo bem possível no mundo (a felicidade) e a ordem da moralidade como dependente de suas relações com a liberdade.
13) A confiança de Kant na capacidade da razão de dar explicação de tudo é a condição primeira da Crítica, mesmo no que se refere ao conceito de Deus, que não nos é acessível por nenhum outro meio (intuição, fé, crença, etc). Para tanto, necessário se faz realçar as condições de nossa liberdade de pensar, que se encontra acima de qualquer tipo de censura, pública ou particular, pois sua única lei é a que a razão dá a si própria!
14) Na resposta à pergunta: Que é “Esclarecimento”? (Aufklãrung), Kant nos diz que “é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado” Sapere aude! (ouse saber!), eis o lema do esclarecimento. Doador de autonomia, o esclarecimento tem como inimigos principais a preguiça e a covardia. Seu requisito básico é o exercício da liberdade, sem a qual não atingiremos uma fase esclarecida.
15) “Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade“, levantado por Benjamin Constant na Obra A França de 1797, na qual o autor conclui que “dizer a verdade é um dever, mas somente com relação àqueles que têm direito à verdade. Nenhum homem, porém, tem direito à verdade que prejudica os outros”, Kant argumenta que a expressão ter “direito à verdade” é desprovida de sentido, e seria melhor substituí-la por “todo homem tem direito à sua própria veracidade” ou verdade em sentido subjetivo. Dessa forma, toda pessoa que mente deve arrostar para si as conseqüências boas ou más que seu ato possa provocar, seja moral ou juridicamente.
16) Sobre a discordância entre a moral e a política a propósito da paz perpétua, Kant transcreve que “a política diz: sede astutos como as serpentes; a moral acrescenta (como condição limitante): e sem maldade, como as pombas“, o que demonstra uma clara oposição entre política e moral (que não existe no aspecto teórico, mas apenas no sentido subjetivo). A solução estaria na diferença entre o político moral e o moralista político; o primeiro é fácil de conceber, pois preocupado em implantar a moralidade dentro da política; quanto ao segundo, ao se apegar muito à moral, arrisca perder suas oportunidades de estadista. Para o primeiro, trata-se, pois, de um problema de arte; para o segundo, a prudência guiada pelo princípio da justiça há de indicar a conveniência das melhores ações. É por isto que toda política deve dobrar seus joelhos diante do direito.
17) No opúsculo O fim de todas as coisas, Kant nos adverte que a expressão “passagem do tempo para a eternidade”, não significa que alguém passe desta vida para a duração de um tempo eterno, pois não haverá mais ‘tempo’ no sentido de ‘transcurso’.
18) O fim dos tempos está também associado à idéia de Juízo Final, ou acerto de contas de todos os nossos atos praticados. A respeito, os teóricos se dividem em duas categorias, os unitários, segundo os quais todos se salvarão; e os dualistas, segundo os quais nem todos se salvarão. A aniquilação total de tudo não se coloca, de vez que ela significaria uma sabedoria falha no ato mesmo de tudo que criou.
19) Dessa forma, podemos encontrar três hipóteses para o fim de todas as coisas: 1) um fim natural, segundo a ordem das finalidades morais de nossos atos; 2) um fim místico, de transformação repentina, sobre o qual nada podemos supor; 3) um fim anti-natural, invertido, de todas as coisas, pela vitória do princípio do mal.
20) Segundo LAO-TSÉ, o fim de tudo é o nada ou a absorção de nosso ser no abismo da divindade. Daí derivam o panteísmo e o spinozismo, baseados numa idéia de emanação ou criação eterna de um universo que é o próprio Deus. O cristianismo, ao enfatizar Deus como Pai, é a resposta mais convincente para o aperfeiçoamento de nossas qualidades morais, ensinando-nos a confiar numa Providência, sem descurar de nossa responsabilidade com o destino final de nosso futuro, o que se coloca como uma exigência de razão prática, liberal.
RENÉ DESCARTES – O Discurso do Método
1) Primeira Parte: A Dúvida Metódica
– O bom senso é coisa bem partilhada entre os homens.
– Nossos erros não provêm de diferenças racionais, mas sim pela forma com que conduzimos nossa razão, “pois não é suficiente ter o espírito bom, o principal é aplicá-lo bem”.
– Descartes se considera feliz por ter encontrado um método autêntico de descoberta da verdade.
– Contudo, não se dá por satisfeito, pois pode estar sendo enganado.
– Apesar de ter aprendido todo o conhecimento disponível em sua época, Descartes acha muito proveitoso o ato de viajar, que enriquece sobremaneira os nossos conhecimentos. Ele também aprecia muito a retórica e a poesia.
– Mas a sua maior admiração é pela matemática, pela certeza e evidência de suas demonstrações.
– Ele também reverencia a Teologia, e considera a fé uma graça de Deus, concedida por igual a sábios e ignorantes.
– Quanto à filosofia, a considera nobre mas eivada de controvérsias, o que não lhe assegura uma evidência mais segura.
– Quando jovem, desde cedo demonstra interesse em viajar, conhecer novos costumes, sempre avaliando tudo sob o prisma de sua consistência e de sua utilidade.
2) Segunda Parte: A descoberta do método
– Estando em visita à Alemanha, ficou isolado numa sala de Quartel, quando então intuiu os quatro preceitos fundamentais do método:
1º) Jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.
2º) Dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quanto possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las.
3º) Conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.
4º) Fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.
– O método deve tomar corpo a partir do reconhecimento da concatenação dos conhecimentos, sendo o anterior condição da verdade do posterior.
– São as ciências matemáticas que nos asseguram as demonstrações mais evidentes e é por elas que devemos começar.
– A concepção generalizada da correlação de todas as coisas se chama mathesis universalis ou perspectiva do mecanismo universal que move todas as coisas.
– Não obstante, será necessário recorrer aos diversos princípios da filosofia, para poder discorrer sobre ela (a mathesis). Descartes reconhece que não está preparado para isso, por ser muito jovem (23 anos).
3) Terceira Parte: A moral provisória
Essencial para a continuidade da vida, enquanto se põe em dúvida provisória a verdade da ciência:
– Obedecer às leis e aos costumes de meu país, retendo constantemente a religião em que Deus me concedeu a graça de ser instruído desde a infância, e governando-me, em tudo o mais, segundo as opiniões mais moderadas seguidas por aqueles próximos ao meu convívio.
– Não agir quando sentir que há dúvidas quanto aos resultados que obterei com os meus atos e se essa seria a melhor opção.
– Procurar sempre antes vencer a mim próprio do que os estímulos, modificando-os em meu benefício, mesmo que, no final, me sinta incapaz de alterá-los.
– Por fim, deliberei passar em revista as diversas ocupações que os homens exercem nesta vida, para escolher a melhor.
4) Quarta Parte: A obtenção da Verdade
– Face à dúvida geral, só uma certeza que é primeira diante de todas as demais: eu penso, logo existo (cogito, ergo sum).
– A constância do meu eu face a mutabilidade de tudo levou Descartes a considerar a alma como separada inteiramente do corpo (dualismo).
– Assim, tudo que concebemos mui clara e distintamente é verdadeiro, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quis são as que concebemos distintamente.
– Da análise da perfeição imperfeita que existe em tudo, Descartes pôde concluir pela suposição da existência de um SER PERFEITO, Causa de Si Mesmo, Deus, como condição do menos que só pode ter origem num mais.
– É a elevação da mente acima dos sentidos que permite chegar a esta conclusão, por ser puramente racional.
– Deus é a garantia de não há um gênio maligno a nos enganar, como se tudo fosse um sonho.
ARISTÓTELES – Ética a Nicômaco, Livro III
1) Aristóteles, agora aborda as possíveis diferenças entre as ações voluntárias e as involuntárias, estas últimas caracterizando aquelas ações que ocorrem ‘sob compulsão ou por ignorância’. Sem dúvida há muitas situações práticas nas quais nos encontramos envolvidos, que por ignorância ou contingência, as praticamos involuntariamente, p.ex. deixar de pagar uma dívida por falta de dinheiro, pressão de necessidades fisiológicas, descarte de um bem por incapacidade de mantê-lo, etc.
São situações forçadas, não-voluntárias (por ignorância) ou involuntárias (por produzirem efeitos de dor ou arrependimento)..
Depreende-se, portanto, que a prática de atos involuntários envolve a existência de um contexto desfavorável que faz surgir o ilícito, no qual resulta uma responsabilidade apenas contingenciada pelas circunstâncias, das quais todos nós em alguma ocasião podemos estar submetidos. Ora, isto implica uma predisposição de caráter superior, privilégio apenas de pessoas dotadas de heroísmo ético, que sabem superar os constrangimentos.
2) A escolha parece ser voluntária, mas não se identifica com o voluntário, pois a escolha envolve um princípio racional e o pensamento. Reciprocamente, nem tudo que é voluntário parece ser objeto de escolha, como nosso desejo de imortalidade.
3) Onde ficam então nossas deliberações? Deliberamos sobre as coisas que estão ao nosso alcance e podem ser realizadas. Porém, nem tudo pode ser objeto de nossas deliberações, por estarem além de nosso arbítrio, como a veracidade das leis naturais, a certeza dos números, etc. Por outro lado, as deliberações guardam estreita relação com as investigações, mas nem toda investigação é deliberação.
4) Ora, deliberamos afim de obter o melhor bem em cada situação, pois em princípio ninguém deseja o que é mau .Para aqueles que escolhem fazer o mal, isto ocorre por não perceberem a verdade inerente a cada ato.
5) Nossa liberdade nos capacita sermos vis ou virtuosos, bons ou maus. Para tanto, temos que escolher os meios e estabelecer o que queremos alcançar, ou seja, os fins de nossos atos.
Se muitas vezes os fins não estão claros, a virtude as resumirá na consciência dos meios. Por isso, estamos diante dedisposições de caráter, que escolhem os meios a partir de nossas próprias tendências.
6) Este item nos fala do medo e da confiança, cujo meio-termo é a coragem. Para nós, as coisas que tememos as consideramos como males, como a doença, o infortúnio e a morte. O bravo ou destemido é o que enfrenta os perigos com valentia.
7) A covardia, a temeridade e a bravura estão todas relacionadas com a coragem. Se as duas primeiras pecam por falta ou por excesso, a bravura é sua posição mediana.
8) Espécies de coragem. Aristóteles nos descreve cinco:
- a coragem do cidadão-soldado: convocado para o combate, fica a mercê dos infortúnios e das glórias que as guerras oportunizam.
- a coragem oriunda do conhecimento (Sócrates), quando este é desafiado pelos perigos e paradoxos da existência.
- a coragem existente nos apaixonados, quando comumente esses se lançam no destemor das conquistas.
- a coragem proveniente do otimismo, pela confiança na obtenção dos resultados.
- a coragem proveniente da ignorância dos perigos.
9) A coragem está mais relacionada ao medo que à confiança. Nisto, preponderante é o medo da dor.
10) A temperança: é um meio-termo em relação aos prazeres. Estes podem ser corporais e espirituais. Àqueles que gostam dos prazeres da alma não podemos chama-los temperantes ou intemperantes. Deixar-se dominar pelas intemperanças é próprio dos brutos.
11) O intemperante almeja tosas as coisas agradáveis ou as que mais o são, e é levado pelo seu apetite a escolhê-las a qualquer custo. Muitos sofrem por não obtê-las.
12) A intemperança é mais voluntária que a covardia, pois se esta foge da dor, aquela só procura o prazer. As crianças poderão ser vítimas da intemperança, se não forem educadas a controlar seus apetites. Em conclusão deverá sempre haver um princípio racional a guiar nossas tendências.
ARISTÓTELES – Ética a Nicômaco, Livro II
1) A virtude se diz intelectual e moral. A primeira se desenvolve através do ensino, exigindo longo percurso; já a virtude moral depende do hábito (ethos), conforme a etimologia da própria palavra.
Ressalta-se que as virtudes intelectuais ou morais não são produto da Natureza, cujas leis são determinísticas. Ora, nós somos produtos da Natureza, o que implica considerarmos que somos adaptados pela Natureza a desenvolvê-las.
As virtudes não são como os sentidos, que possuímos antes de usá-los, pois só as adquirimos pelo uso reiterado das práticas virtuosas, que nos tornam melhores.
2) Trata-se aqui de estabelecer a prática das virtudes dentro do princípio de uma regra justa, pois, quando se trata de condutas, a obtenção do bem a partir de suas práticas, não possui nenhuma fixidez. Tudo se torna apenas aproximado. demandando prudência e moderação para que não venhamos a praticar excessos. Pois, tanto a deficiência como o excesso de zelo, destroem a força da sua eficácia. Assim, nossa saúde depende apenas de uma quantidade e variedade adequada de alimentos, o mesmo ocorrendo com a temperança, a coragem e outras virtudes que, se não bem controladas, não fortalecem a desenvoltura progressiva de nossas condutas.
3) Importa ter em mente que nossa excelência moral está em relação direta com os prazeres e dores que sentimos (Heráclito). Pois se o prazer nos causa alegria, nossa tendência será procurá-lo, evitando o mal que ele possa nos causar. Como disse Platão, aqui é o lugar de uma boa educação, que ensine os limites virtuosos de nossas sensações.
4) A virtude depende essencialmente da prática costumeira. Não basta conhecer as virtudes pela filosofia, pois não de trata de saber, mas sim de agir.
5) Em nossa alma há três espécies de coisas: faculdades, paixões e disposições de caráter. A virtude deve pertencer a uma destas.
A virtude não está entre as faculdades, pois estas são apenas disposições para sentir as paixões; também não está nas paixões, que são apenas reações segundo o nosso caráter; as virtudes estão, portanto, em nossas disposições de caráter, como qualidades de nosso eu para concretizá-las.
6) As disposições de caráter dependem não só de nossas aptidões biológicas, como também da forma com que as utilizamos.
Essas disposições de caráter não se situam nos excessos, mas sim no meio-termo que os contrabalança. É uma sabedoria prática, que foge do vício e dos extremos. Porém, o meio-termo deverá estar sempre voltado para o bem, não para o mal.
7) Ressalte-se que a virtude é sempre uma prática individual, não genérica. Por isso, ela é bem concreta, quando se refere à conduta de cada um. Assim:
- entre o medo e a confiança, a coragem é o meio-termo
- entre a audácia e a covardia, a cautela
- entre o prazer e a dor, a temperança
- entre a prodigalidade e a avareza, a liberalidade
- entre a honra e a vergonha, o justo orgulho
- entre a cólera e a apatia, a calma
- entre o verdadeiro e o falso, a verossimilhança
- entre o aprazível e o detestável, a espirituosidade
- entre a inveja e o despeito, a justa indignação
8) As disposições de nossas virtudes muitas vezes jogam um jogo duplo em relação aos seus excessos, ora mais próximos, ora mais distantes de suas afinidades. Com efeito, o bravo parece atrevido aos olhos do covarde e aquele, por sua vez, olha o covarde como carente de valentia; assim também, o liberal parece pródigo em relação ao avaro e avaro em relação ao pródigo. Por isso, as pessoas que estão nos extremos, tendem a exagerar o meio-termo.
9) Em conclusão, a virtude moral é um meio-termo, obtido pela negação de excesso. Assim, difícil se torna sermos bons, pelo fato de ser difícil encontrarmos o meio-termo. Na dúvida, sempre preferir o mal menor e o prazer e a dor podem ser bons indicadores desse meio-termo virtuoso.